MATERNIDADE/ MATERNAGEM : POR QUAIS NARRATIVAS? 


Falar sobre maternidade e maternagem é trilhar um terreno complexo, instável por suas  várias nuances e aspectos. A palavra maternidade tem sua origem no latim medieval “maternitas, atis” que significa qualidade de ser mãe. Refere-se ao vínculo biológico, consanguíneo entre mãe e filho, que num primeiro momento, surgiu a partir de uma relação entre homem-mulher. Em contrapartida, hoje temos um processo bem diverso em sua manifestação: barriga de aluguel, inseminação artificial, banco de esperma, etc. Ao passo que a maternagem está relacionada a tudo aquilo que envolve o bebê, a partir do atendimento de suas necessidades básicas, e emocionais. D. Winnicott criou o conceito de holding, ao se reportar ao ambiente suficientemente bom, necessário para um pleno desenvolvimento das capacidades do bebê, e que vai além da figura materna. 

Ao longo dos séculos observamos uma mudança histórica no papel das mulheres, figuras diretamente afetadas pela maternidade, e na concepção da maternagem, que passa a incorporar outros sujeitos e cuidados no processo. 

Passamos a questionar sobre a obrigatoriedade,a imposição social sobre à mulher para que  assuma o papel de mãe. Para Freud a maternidade é a saída que a menina encontra à resolução do Édipo. Já para Lacan a mulher é não-toda. Há uma parte no gozo  que é inapreensível, enigmática. Está para um além da maternidade (gozo fálico). 

Cada mulher deve buscar um certo conhecimento histórico, um conhecer-se como sujeito, como self. São muitas facetas de um mesmo prisma que precisam ser levadas em consideração. Por isso, pontuo que falamos a partir de narrativas, todas criadas de acordo com uma época, uma cultura, um padrão, uma visão, e porque não dizer, um objetivo oculto ou nem tão oculto assim. Mas, necessariamente, essas narrativas não contêm a verdade em si mesmas, por isso a importância do questionamento e reflexão.


REFERÊNCIAS:

Almeida, Angela Maria Menezes– Feminilidade- caminho da subjetivação-Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 38 | p. 29–44 | Dezembro/2012 

Freud, S. Sexualidade feminina (1931). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud – Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.21.  

Freud, S. Feminilidade (1932). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud – Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.22. 

Gradvohl, Sílvia Mayumi Obana; Osis, Maria José Duarte; Makuch, Maria Yolanda -Maternidade e formas de maternagem desde a idade média à atualidade- Pensando fam. vol.18 nº.1, Porto alegre jun.2014.

Lacan, J. “Função e campo da fala e da linguagem”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.  

Marsillac, Ana Lúcia Mandelli; Mattiazzi, Thiciara- Kinderwunsch - Deslocamentos da maternidade- Correio APPOA , vol.5, nº.7, agosto/2018.  

Medeiros, Clarice; Aiello-Vaisberg, Tania Maria José- Reflexões sobre holding e sustentação como gestos psicoterapêuticos- Rio de Janeiro, vol. 26, n.2, p. 49-62, 2014 

Winnicott, D. W. (1990). Os objetivos do tratamento psicanalítico. In D. W. Winnicott. O ambiente e os processos de maturação (pp. 152-155). Porto Alegre: Artes Médicas (Trabalho original publicado em 1962).  

Winnicott, D. W. (1990). Distorções do ego em termos de verdadeiro e falso self. In D. W. Winnicott. O ambiente e os processos de maturação (pp. 128-139). Porto Alegre: Artes Médicas (Trabalho original publicado em 1960). Winnicott, D. W. (1994). 


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