Do Desejo ao Vínculo

 



Para que existamos, é preciso, num primeiro momento, que alguém nos deseje.

Desse desejo, uma série de eventos se faz necessária para que nos materializemos como humanos. A começar pela fecundação. Essa dança do acasalamento entre um óvulo e aquele "um" espermatozoide que dará origem a um indivíduo específico não é uma tarefa fácil. Depois vem o processo da nidação, que é a implantação desse embrião na parede do útero, exigindo uma força contrária à rejeição que o corpo da mulher fará a fim de eliminar esse novo "intruso". Passada essa fase, vem a gestação propriamente dita, com todos os pormenores comuns ao período em si e os singulares pertencentes a cada mulher. Após tudo isso, vem o desfecho do nascimento. Quem já experienciou, viu ou tomou conhecimento da mecânica necessária para que um bebê nasça sabe que é um processo traumático física e emocionalmente.

Segundo Otto Rank, psicanalista e psicólogo vienense discípulo de Freud, o nascimento é o primeiro e o mais significativo trauma na existência humana, gerador do nosso primeiro afeto: a angústia. Partindo desse pressuposto, nascer é cair no abismo da vulnerabilidade humana. Somos seres totalmente dependentes ao nascimento, e por muitos anos ainda o seremos. Podemos morrer por hipotermia, hipoglicemia ou inanição se não formos agarrados, cuidados, alimentados e protegidos. 

D. W. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, fala-nos que a ausência de cuidados para com o recém-nascido seria percebida como um despedaçamento, um aniquilamento. E a criação de um "ambiente suficientemente bom" é parte vital para o desenvolvimento. Para Lacan, psicanalista francês, passamos de um ser de necessidades (biológicas) para um sujeito de demandas. Por meio da linguagem, o Outro dá voz às expressões do bebê, nomeando-as uma a uma. A partir de todos esses processos, os vínculos vão sendo estabelecidos e fortalecidos. Diga-se de passagem, vínculos de dependência que serão reproduzidos na adultez ao longo da vida dos sujeitos. Esse fenômeno nos coloca no convívio em comunidade, nas trocas com o outro. Pois é a partir desse estar com o outro que existimos e temos a chance de alcançar o que de fato devemos, que são graus elevados de cognição, os quais nos darão acesso à "consciência". E para que isso se estabeleça, faz-se necessário que saiamos do estágio de dependência, da necessidade visceral de pertencimento a qualquer custo, para um estado de independência, do pensar por si mesmo. Não falo de um simples pensar, já que isso fazemos o tempo todo, mas de uma análise crítica sobre nós e o mundo.


Texto: Valéria Ivaniski.

Imagem: O Beijo, de Klimt.

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